Suscríbete a nuestro boletín
22 oct 2021
RAYANOS

O luxo de uma sombra

05 marzo 2019

O luxo de uma sombra

"No entanto, os luxos a que o Francisco se referia não estavam contaminados com o vírus social de possuir mais e mais."

Ponho-me a pensar de onde irrompem as minhas crónicas. Da inspiração? Duvido. Da minha memória? Uma parte. Da labuta em peneirar areias reminiscentes para encontrar pepitas de emoções? Deparo-me com alguma certeza. Depois é tentar grafar a precariedade da convicção com que vejo o mundo e, para além do meu desejo de partilha, encontrar alguém cuja paciência seja generosa comigo.

Porém, no caso da presente crónica, identifico perfeitamente o onde e o porquê. Nasceu em pleno cromeleque do Xerez, graças a uma observação do meu caríssimo Francisco Mondragão sobre o que é o luxo em pleno século XXI.

Como sou mais mundano, gozei logo com a situação, ao lembrar-me de alguns artistas de hip-hop, esses do Gangsta Rap, com as suas correntes, dentes (e pistolas) de ouro, encostados a carros de grande cilindrada e rodeados ninfas silicónicas com biquínis proporcionais ao siso.

Cada um que se adorne com o que queira (e possa), desde que não faça mal a ninguém por isso. Eu confesso não ser grande fã do dourado, nem em metais nobres nem em pechisbeque. Gosto sim de um sol aloirado, como o daquele domingo, rico em vitamina D, que nos obrigava a proteger o cocuruto da cabeça por ser atrevido em resfriados bruscos de amplitudes térmicas.

Se procurarmos na infopédia o que significa luxo, vendemos as nossas almas a definições como:

1. Ostentação da riqueza, magnificência, gala;
2. Fausto; sumptuosidade; pompa;
3. Qualquer bem ou objeto de custo elevado e que não é indispensável.


É fácil entender expressões como dar-se ao luxo, permitir-se um capricho ou estravagância de um qualquer material luxuoso devido à sua excelente qualidade. Obviamente que o peso das expressões nos faz fazer contas e contemplar o interior das nossas carteiras. Eu pelo menos sou assim. Fui educado a ter unicamente os luxos que a minha carteira pode pagar e, de preferência, em saldos. Por isso, mesmo que o meu ego quisesse, nunca o meu corpo (entenda-se trabalho!) poderia passar cheques para filigranas de rapper, biquínis de diamante e altas gamas a aquecerem, ainda mais, o ambiente global.

No entanto, os luxos a que o Francisco se referia não estavam contaminados com o vírus social de possuir mais e mais. Tinham a ver com o presente que ali estávamos a viver, com o Alqueva no horizonte e Monsaraz a cuidar a nossa retaguarda.

Ambos, no seio de um grupo madrugador (decidido a tentar interpretar a paisagem que os acolhia), desfrutámos de um momento único ao assistir a violinista Cecilia Bercovich interpretar quatro pequenas peças acompanhada, unicamente, pelo vento alentejano.

O auditório e a acústica foram irrepetíveis. Assim como os meus filhos, e outra pequenota, foram as únicas crianças expostas às flores de fevereiro e ao som de um violino numa paisagem que, hoje, é parte da sua infância e que só o futuro decretará se pertencerá, em exclusivo, à geografia física ou também à dos afectos.

Este luxo devemo-lo (grátis, diga-se de passagem) à organização do festival Terras Sem Sombra, na sua 15ª edição, promovido pela associação Pedra Angular. Sob o título Sobre a Terra, sobre o Mar – Viagem e Viagens na Música (séculos XV-XXI), e tendo os Estados Unidos da América como país convidado, esta magnificência decorre até dia 7 de julho por terras alentejanas e extremeñas.

Existe a tendência a não valorizar a sombra de uma árvore, quer por comodismo de ar condicionado, quer por ilusão de perenidade da paisagem. A verdade é que desfrutar da sombra generosa destas iniciativas em regiões tendencialmente tórridas e desérticas, como o Alentejo e a Extremadura, é um luxo alheio a recheio de carteiras. É questão de querer e fazer por se pôr à sombra.

OPINIÓN DE NUESTROS LECTORES

Da tu opinión

NOTA: Las opiniones sobre las noticias no serán publicadas inmediatamente, quedarán pendientes de validación por parte de un administrador del periódico.

NORMAS DE USO

1. Se debe mantener un lenguaje respetuoso, evitando palabras o contenido abusivo, amenazador u obsceno.

2. www.rayanos.com se reserva el derecho a suprimir o editar comentarios.

3. Las opiniones publicadas en este espacio corresponden a las de los usuarios y no a www.rayanos.com

4. Al enviar un mensaje el autor del mismo acepta las normas de uso.

ÚLTIMAS COLUMNAS

ARCHIVOS

TAGS